segunda-feira, 31 de março de 2025

E isso era tudo.

Afetado por alguma substância desconhecida, ele andou um pouco trôpego, cambaleante e se encostou no canto da sala. Talvez tenha ouvido o canto da sereia, talvez tenha bebido um gole a mais. Talvez, talvez.

Se lembrou de certas coisas que gostaria de esquecer. Do jeito imaturo que leva certas coisas quando não tem controle delas, tudo impensado. Todo desconsertado.

Fechou os olhos e viu tudo o que mais queria ver.

O sorriso dela o fazia um garoto, que tem a ordem dos pensamentos atropelados, tudo bagunçado, segunda-feira de madrugada. Nem parecia ter caminhado tanto, era só um menino. Outra vez.

O peso dos anos, a firmeza nos ombros era só disfarce pra tanto desconserto. Na verdade, pela primeira vez depois de tantos anos, ele não sabia o que o fazer. Mas a queria mais que tudo.

Ela andava por aí cheia da presença dela mesma, olhos de quem sabe o que quer, mesmo vivendo no furacão dela. Palavras firmes, mesmo nos dias mais confusos. Ele soletrava algo pra si mesmo. Ele se perdia nas palavras.

Como pode o poeta pestanejar? Não saber o que falar? 

Pois é! Ela o fazia esquecer o sentido das palavras que ele dominava, mandava e desmandava. Ele era só mais um que por ela se encantaria. Ela era dona de si. Ele era dela.

Andando pelos próprios sonhos, se lembrou que um dia pediu ao universo um amor. Pediu que ela chegasse arrebentando as portas e quebrando as janelas, pediu que não fosse morno, que não fosse pequeno, que não fosse ameno. E enfim foi atendido. Ele só não não sabia que não saberia o que fazer.

Guardou alguns versos nos bolsos, junto aos cigarros e o coração. Tudo amassado, cheirando a tabaco. Se envergonhou ao tirar o papel do bolso, nunca deu a ela seus escritos. Achava que não eram o bastante.

Se levantou, colocou as mãos nos bolsos, e ainda um pouco tonto se colocou a andar. Deixou em cima da mesa todos os seus escritos e torceu. Torceu do fundo do coração que um dia ela os encontrasse e viesse a ler.

Talvez dentre os papéis tenha deixado também o coração, e torceu para que ela também o encontrasse. Parecia descaso, mas era a única coisa que ele fazia sabendo o que estava fazendo. Era tudo o que ele tinha para dar.

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