domingo, 11 de outubro de 2026

Noite.

No meu peito um coração cansado. Ainda doendo por tudo o que o alcançou.

Sem pensar em mais nada, saí por aí. Dia comum. 

Ela cruzou o meu olhar repentinamente e passou a me falar do que pra mim era familiar. Como se me conhecesse, era tudo o que eu menos esperava. Era tudo o que eu mais queria. Meu Deus! Porque ela me traz isso? Eu não posso me afogar novamente! E começou a me falar sobre astros e estrelas. Refez meu mapa astral. Éramos tão compatíveis! Me parecia precoce e errado.

Abraçou meus medos de uma forma tão sorrateira e furtiva. Arrancou de mim até o que eu não queria dizer. Se apaixonou pelos meus defeitos. Eu tão a flor da pele, eu tão a mostra. Era tudo o que ela tinha para conhecer.

Eu tarde dessas pedi para não encontrar, me fechei nos meus devaneios. Ela cruzou meu caminho. Não procurei! Mas a encontrei, fim de noite. Sem assunto, sem procurar.

 Me olhou nos olhos e me fez perguntas claras! Eu perdido me rendi! Tão bem vinda a sorrateira dona dos meus olhos! Parei para observar! E ela falava da liberdade que era amar. Eu me rendi. O poeta decidiu que seria uma boa ideia o amar. Ela o ganhou!

Olhos de luz, falas descomplicadas. Ela era uma atriz, assim como ele. Seria boa, mas não saberia fingir aos olhos de um outro ator. O desejava por inteiro, ele também passou a desejar que ela estivesse com ele.

Caminhe até mim sorrateiramente como dia desses, me deixe ser o dono do que mais desejas, e também do seu prazer. Porque aparentemente nossos corpos ainda inexistentes se conhecem de outras vindas. De outras vidas, da gente todo. Porque às vezes eu sinto que já te amei.

Bela moça do sorriso claro, dos cabelos de luz e do dia feliz. Eu quero morar nos sonhos bons que você sempre me recomenda.

No meu peito, o coração cansado, escolheu entender e se dispor a te amar. Até onde ele vai?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Agosto

 

E todos os oceanos já haviam sido atravessados. Mas atravessado estava eu, com o nó na garganta de não ouvido, ser ainda engasgado aos ditos e vontades alheias. Eu era escravo da minha própria história, como jamais fora.

Eu só queria pra ti um dia de sol, menina. Eu só queria ser pra ti um dia de sol!

Escute, eu sou o menino errante carnal, cheio de vontades. Eu tenho ali na minha caixinha das dificuldades mil e um defeitos, nenhum deles é algum que me atribuíram essas malditas línguas que tanto escuta. Eu só queria a leveza de conversa boba, fim de tarde. Um amor e dois dedos de prosa. Eu sou tanta coisa que nem sabes, mas escute-me. Tem te faltado me escutar!!!

Tarde dessas agarrado aos livros das recordações, me lembrei de ti em uma noite dessas, quando essa tempestade ainda não caia. Me lembrei do teu sorriso leve, do teu abraço quente, pele rente a pele. Uma vez na vida eu me senti o teu amor. Essa lembrança ainda carrego comigo, grudada, feito tatuagem que eu jamais apagaria.

Manhã dessas agarrado as minhas maiores lamentações eu quis ser novamente o teu amor, mas me grudei aos deslizes do tempo, das escolhas mal feitas que tivemos. A gente poderia ter a chance de acertar de verdade depois de tanto errar? A gente poderia!

Eu era o menino sempre capaz de amar mais e mais, que atravessava oceanos, que ia a passos largos ao teu encontro onde quer que fosse. Mas você um dia ainda vai me escutar?

Talvez me escutando descobrisse que nem queria mesmo ser o meu amor, meninas tão meninas, embora neguem, gostam de amores atribulados, histórias erradas e difíceis. E eu. Eu na verdade sou um amor tão fácil, tão claro.

Você sempre disse aos quatro cantos o quanto me achava difícil, será que me amaria quando descobrisse que eu sou amor de terra? Que eu sou tão sólido e seguro? Será que me amaria se me escutasse? Ei!! Você pode me ouvir?

Hoje a noite esteve fria, e eu me mantive aqui, no canto dos meus pensamentos. Eu me lembrei de ti com grande docilidade, mas me lembrei de quem eu sou. Eu me lembrei, hoje, noite de agosto. Presságios de solidão misturada a dor, mas eu estava acompanhado de mim, que a tanto tempo não via. Será que me amaria? Será que amaria os pés que voltam a tocar o chão? Será que abriria as portas e não fugiria pelas janelas? Será que você sabe viver o amor que não faz do calor tempestade?

Todos os oceanos já haviam sido atravessados, eu não tinha um navio. Eu remei até aqui.

E de corpo e coração quente eu pergunto: “Será que pode me ouvir?!”

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Febre terçã.

 

Tormentos de febre terçã, sono atribulado. Eu me revirava na cama como quem busca encontrar ao lado a água que mataria toda sede do mundo. Ela não estava ali.

Me lembrei de noite dessas, quando ainda presente ela veio me visitar. Me abraçou a alma devagar, o corpo não, no corpo ela deixou marcas permanentes.

Me olhou nos olhos como quem devora a alma e me fez a desejar. Eu era libido e paixão, eu só queria descasar nos seios dela, quando exausto do corpo pudesse ouvir o coração. Não me venha com intenções vagas, mulher! Eu caminhei até aqui, vidas após vidas, atravessei continentes. Eu encontrei o centro da terra dentro de ti, e ele era quente feito vulcão!

Você não sabe tudo o que eu atravessei para que pudesse finalmente te alcançar!

Os ditos tão exagerados desse poeta não conseguem descrever o que sente, quando te tem aqui. E quando perguntado qual a diferença desse para outros sentimentos, ele estonteado, quase que perplexo não sabe explicar e define que “é diferente”. Como se tudo o que viveu antes, fossem só o caminho que precisava percorrer para chegar até aqui.

Olha só, o sol ainda nem nasceu, e é por isso que com o coração em mãos eu venho te buscar. Você não precisa temer o meu coração!

Sangue, suor e o edredom. Tormentos de febre terçã, sono atribulado!

Eu sonhei com você. Mas a chuva tão forte me fez acordar!

Milhas.

Tão desfeito quanto as linhas do tempo, que podem decidir a sua trajetória a qualquer momento, motivado pelos percursos das escolhas. Pelo sol do fim da tarde após um dia de chuva, que desfaz qualquer presságio de escuridão. Pela chuva também no fim do dia, que lava qualquer escuridão indesejada.

Eu estive aqui, imperfeito.

Como tudo o que é verdadeiro.

Eu caminhei pelo tempo e revisitei velhas histórias tão minhas, tão minhas que ninguém poderia estar lá. Mas você, tão diferente de tudo o que eu experimentei, esteve.

Foi a primeira vez que eu abracei o mundo todo sem abraçar a dor de ser quem eu era. Doía, mas não me abraçava. Eu queria abraçar o mundo para te abraçar. Você era mais do que eu poderia alcançar.

A dor do fim da tarde estava latejando enquanto eu só queria te abraçar. Eu tava todo errado, mas nada me parecia tão certo.

Cê tem um jeito doce de brilhar os olhos, cê tem um jeito forte de tremer a minha alma. 

Eu prometi a mim mesmo ser maior, só pra pra ter abrigar inteira, você era gigante, eu precisava crescer para te alcançar. Eu tinha tanto pra caminhar.

Eu ainda vejo a luz no meu dia nublado, ela ainda tem o seu cheiro, que eu ainda sinto por toda casa.

Talvez eu ainda caminhe uma eternidade para te alcançar, mas custe o que custar eu vou caminhar todas essas milhas. Eu vou te alcançar. Abraçando toda a minha alma, abraçando quem eu quero ser com você.

Só fique para o café, eu tenho um sol pra gente.

A dança.

 

Dentre um milhão de incertezas, o poeta se debruçou sobre os poemas que nunca leu, sobre um amor que nunca teve. Sentiu no ar um cheiro doce, se lembrou do cheiro do café, ainda de manhã esticou os braços, se sentou despenteado na cama e desejou que ela estivesse ao seu lado.

Quantos amores mais mereceram dele tanta saudade? Quantos passos mais ele precisaria dar para atravessar a sala, olhá-la nos olhos e a chamar para dançar? Ela enfim aceitaria?

Não são dela somente essas palavras, eram dela todos os poemas que ele antes escrevera, antes mesmo de a conhecer.

A menina mulher o olhava nos olhos com tanto medo, medo de se jogar do décimo andar e se estabacar. Mas sabe, menina. O amor é um risco.

Ele também tinha as sombras dele. Mas para ela ele queria os dias de sol, mãos dadas no final de uma tarde qualquer. Tarde calma em frente ao mar, tarde chuvosa embaixo dos cobertores. Para ela estava guardado só o que de mais bonito ele aprendeu a escrever, dizer, fazer e amar. Eram dela os poemas mais doces, o toque sutil, o amor e a libido. Ele era o menino intenso “escrevedor”, ela era tudo o que ele mais queria.

Noite dessas, caminhando entre os meus sentimentos mais claros, eu te encontrei. Sabia? Eu te encontrei! Você atravessava o meu caminho numa noite qualquer. Olhos de mulher, sorriso de menina. Eu te peguei pelas mãos e te chamei para dançar. Coloquei teu corpo rente ao meu, pele com pele e dancei em você devagar, enquanto você sussurrava alguma coisa em meu ouvido, eu não me lembro exatamente o que, mas era tão bom!

Eu tenho pra ti um par de promessas, daquelas que eu sei que vou cumprir, e por isso tão poucas. Eu cuidarei de ti e do teu amor! Eu cuidarei de ti inteira!

Dentre um milhão de incertezas, eu te chamei para dançar uma canção feita sobre um amor. Sobre um amor que eu nunca tive, mas que ansiava por ter.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Você vem?

Já faz um tempo que meu coração caminhava sem beira, procurando um precipício qualquer. Esse poeta não se assustava, era normal que elas partissem e o deixassem partido. Então, inventava paixões para não morrer frio, antes que o dia acabasse, antes da dose se esvair no gelo que ele nem pediu.

O dia era escuro, ele gostava de dias cinzas, negros jamais!

Sabia que se tomasse um pouco mais do veneno estaria perto de onde queria estar, então não se privava nos prazeres momentâneos , do sussurro da carne e dos gritos do purgatório onde caminhava. Eram dias de febre terçã, o resto do vinho na taça. Os cacos de vidro no chão.

Mas aí, meio perdido entre pensamentos rápidos os olhos dela ( antes conhecida pelo nome) cruzaram com os seus, fim de dia. Fim de ano, pra ele talvez até fim de vida. E ele passou a lhe falar sobre tantas coisas. Sobre o tédio, o medo, o caos e outras coisas profundas.

O abraço dela tinha um cheiro de paz misturada ao medo, o medo de perde-la após tanto caminho para encontra-la. Ele buscaria o mundo todo e daria a ela de presente numa tarde de terça -feira. No final de qualquer dia banal. 

Ela mal sabia quantos planos eles fez em semanas. Planejou mudar o mundo todo e fazer tudo o que não fez. Para que fossem dele os sonhos dela.

Ele queria morar no peito e entre as coxas dela, queria morar feito menino no lugar seguro dos seus olhos tão cheios de cor. Lhe dar a liberdade de ser quem era, queria lhe dar a certeza do maior sentimento. Queria ser pra ela dia de sol e intensidade, tudo ao mesmo tempo. Feito vendaval em meio a uma brisa qualquer. Feito a brisa que dissolve qualquer vendaval.

Eu tenho pra ti um par de sonhos e mais um zilhão de possibilidades. Você vem?

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Respirar.

Eu teria mil motivos para ter desistido nesses tempos tempestuosos. Talvez pela tremedeira nas pernas, talvez pela mesma tremedeira nas mãos. Talvez pelos pensamentos nas sombras, o aperto no peito recorrente. Mas eu caminhei, com um sorriso aberto, que na maioria das vezes nem era feliz. Mas receptivo sempre.

Eu estive recolhendo pedaços de mim nesse caminho, grande parte eram vísceras, e eu sangrei demais até chegar aqui. Nem eu sei como eu não morri.

Eu ouvi vozes dentro de mim, em pensamentos tão intrusivos. Mas sorri para quem atravessou meu caminho com uma doçura que eu nunca tive antes. Talvez fosse uma despedida, talvez fosse só o que eu queria receber do mundo. Mas se eu partisse hoje, seria sorrindo a felicidade da oportunidade de poder ter sido.

Eu paro em meio aos pensamentos rápidos e resgato minha própria identidade, o meu cheiro e a essência de quem eu sempre fui. O bom menino das histórias tristes tinha um sonho. Ele só queria ser feliz.

Tarde dessas, olhando para o céu. Um livro em uma das mãos e os óculos em outra. Ele se lembrou. Embora a dor recorrente, a falta de ar quase comum, ele era feliz de ser quem era.

A força quase descomunal que era vista por outros, era sentida por ele como uma maldição. A fragilidade que ele escondia era quase sempre uma corda bamba entre a clareza de quem era e o precipício. Era tão feliz aquela existência dolorida, não porque era agradável, mas porque era verdadeira.

Ainda olhando para o céu fez promessas a si mesmo, e mesmo sabendo que era o personagem dela, ele carregava as mesmas dores que ela sentia. Ele sabia que se, se entregasse, seria o fim dos dois.

Ele a olhava cotidianamente nos olhos através do espelho, e mesmo que ele pudesse apanhar e ela não poderia, os dois eram diariamente surrados pela dor daquela existência. Seriam eles gigantes e medíucres ao mesmo tempo. Sentindo toda a intensidade de ser quem eram. Eles eram um só.

O senhor do tempo guardou para eles os vícios e as virtudes mais bonitas, mas não explicou o quanto seria difícil sorrir. Mas eles insistiram em sorrir, mesmo com o aperto de um rolo compressor no peito, e foi assim que eles foram gentileza. E é assim que enquanto respirarem seguirão amando da forma mais leve, enquanto respiram com o peso do mundo descansado sobre aquela caixa que carregava também o coração.

 Eu teria mil motivos para ter desistido, mas algo ainda me faz fazer toda essa força para respirar.