terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Respirar.

Eu teria mil motivos para ter desistido nesses tempos tempestuosos. Talvez pela tremedeira nas pernas, talvez pela mesma tremedeira nas mãos. Talvez pelos pensamentos nas sombras, o aperto no peito recorrente. Mas eu caminhei, com um sorriso aberto, que na maioria das vezes nem era feliz. Mas receptivo sempre.

Eu estive recolhendo pedaços de mim nesse caminho, grande parte eram vísceras, e eu sangrei demais até chegar aqui. Nem eu sei como eu não morri.

Eu ouvi vozes dentro de mim, em pensamentos tão intrusivos. Mas sorri para quem atravessou meu caminho com uma doçura que eu nunca tive antes. Talvez fosse uma despedida, talvez fosse só o que eu queria receber do mundo. Mas se eu partisse hoje, seria sorrindo a felicidade da oportunidade de poder ter sido.

Eu paro em meio aos pensamentos rápidos e resgato minha própria identidade, o meu cheiro e a essência de quem eu sempre fui. O bom menino das histórias tristes tinha um sonho. Ele só queria ser feliz.

Tarde dessas, olhando para o céu. Um livro em uma das mãos e os óculos em outra. Ele se lembrou. Embora a dor recorrente, a falta de ar quase comum, ele era feliz de ser quem era.

A força quase descomunal que era vista por outros, era sentida por ele como uma maldição. A fragilidade que ele escondia era quase sempre uma corda bamba entre a clareza de quem era e o precipício. Era tão feliz aquela existência dolorida, não porque era agradável, mas porque era verdadeira.

Ainda olhando para o céu fez promessas a si mesmo, e mesmo sabendo que era o personagem dela, ele carregava as mesmas dores que ela sentia. Ele sabia que se, se entregasse, seria o fim dos dois.

Ele a olhava cotidianamente nos olhos através do espelho, e mesmo que ele pudesse apanhar e ela não poderia, os dois eram diariamente surrados pela dor daquela existência. Seriam eles gigantes e medíucres ao mesmo tempo. Sentindo toda a intensidade de ser quem eram. Eles eram um só.

O senhor do tempo guardou para eles os vícios e as virtudes mais bonitas, mas não explicou o quanto seria difícil sorrir. Mas eles insistiram em sorrir, mesmo com o aperto de um rolo compressor no peito, e foi assim que eles foram gentileza. E é assim que enquanto respirarem seguirão amando da forma mais leve, enquanto respiram com o peso do mundo descansado sobre aquela caixa que carregava também o coração.

 Eu teria mil motivos para ter desistido, mas algo ainda me faz fazer toda essa força para respirar.

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