E todos os oceanos já haviam sido
atravessados. Mas atravessado estava eu, com o nó na garganta de não ouvido, ser
ainda engasgado aos ditos e vontades alheias. Eu era escravo da minha própria história,
como jamais fora.
Eu só queria pra ti um dia de
sol, menina. Eu só queria ser pra ti um dia de sol!
Escute, eu sou o menino errante
carnal, cheio de vontades. Eu tenho ali na minha caixinha das dificuldades mil
e um defeitos, nenhum deles é algum que me atribuíram essas malditas línguas que
tanto escuta. Eu só queria a leveza de conversa boba, fim de tarde. Um amor e
dois dedos de prosa. Eu sou tanta coisa que nem sabes, mas escute-me. Tem te faltado me escutar!!!
Tarde dessas agarrado aos livros
das recordações, me lembrei de ti em uma noite dessas, quando essa tempestade
ainda não caia. Me lembrei do teu sorriso leve, do teu abraço quente, pele
rente a pele. Uma vez na vida eu me senti o teu amor. Essa lembrança ainda
carrego comigo, grudada, feito tatuagem que eu jamais apagaria.
Manhã dessas agarrado as minhas
maiores lamentações eu quis ser novamente o teu amor, mas me grudei aos
deslizes do tempo, das escolhas mal feitas que tivemos. A gente poderia ter a
chance de acertar de verdade depois de tanto errar? A gente poderia!
Eu era o menino sempre capaz de
amar mais e mais, que atravessava oceanos, que ia a passos largos ao teu encontro
onde quer que fosse. Mas você um dia ainda vai me escutar?
Talvez me escutando descobrisse
que nem queria mesmo ser o meu amor, meninas tão meninas, embora neguem, gostam
de amores atribulados, histórias erradas e difíceis. E eu. Eu na verdade sou um
amor tão fácil, tão claro.
Você sempre disse aos quatro
cantos o quanto me achava difícil, será que me amaria quando descobrisse que eu
sou amor de terra? Que eu sou tão sólido e seguro? Será que me amaria se me
escutasse? Ei!! Você pode me ouvir?
Hoje a noite esteve fria, e eu me
mantive aqui, no canto dos meus pensamentos. Eu me lembrei de ti com grande docilidade,
mas me lembrei de quem eu sou. Eu me lembrei, hoje, noite de agosto. Presságios
de solidão misturada a dor, mas eu estava acompanhado de mim, que a tanto tempo
não via. Será que me amaria? Será que amaria os pés que voltam a tocar o chão?
Será que abriria as portas e não fugiria pelas janelas? Será que você sabe viver
o amor que não faz do calor tempestade?
Todos os oceanos já haviam sido atravessados,
eu não tinha um navio. Eu remei até aqui.
E de corpo e coração quente eu pergunto:
“Será que pode me ouvir?!”
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